terça-feira, 8 de março de 2016

O dia em que você elevou suas expectativas

Você já ouviu falar sobre os ratos? 
Originalmente publicado no Blog Speak for Yourself
por Heidi LoStracco

Há um estudo, em que Bob Rosenthal, pesquisador, pegou um grupo de ratos comuns e medianos e os dividiu aleatoriamente em dois grupos. Ele colocou o rótulo "Inteligentes" em uma das gaiolas e o rótulo "Tapados" na outra. Cada grupo, com as etiquetas afixadas, foi entregue a pesquisadores cujo objetivo era ensinar aos ratos a percorrer o mesmo tipo de labirinto.

Eis o que aconteceu: Os ratos que foram rotulados como "Inteligentes" aprenderam a percorrer o labirinto rapidamente. Durante o processo de ensino, os pesquisadores quem estavam trabalhando com eles falaram positivamente sobre seus ratos e ficaram animados com o seu progresso. Por outro lado, os pesquisadores falaram negativamente sobre os ratos "tapados" e os culparam por sua falta de capacidade e seu lento progresso. Os ratos "inteligentes" se saíram quase duas vezes melhor que os ratos "tapados".

Lembre-se, não havia nada de diferente nos ratos.

Rosenthal e seus pesquisadores descobriram que havia diferenças sutis, quase imperceptíveis no comportamento do pesquisadores em relação aos ratos. Pequenas diferenças na maneira que os ratos eram manipulados. Os ratos "inteligentes" foram tratados com mais cuidado e guiados para os caminhos corretos através do labirinto porque acreditavam que eles tinham a capacidade de aprender rapidamente e ter sucesso. Eram vistos como capazes, competentes e valorosos. Essas percepções e expectativas elevadas mudaram a forma como foram tratados. E, mais importante, mudaram seu resultado.

O resultado de um rato foi alterado pela expectativa de uma pessoa sobre ele.


Você provavelmente imagina que eu não estou escrevendo isso porque eu me importo profundamente com os ratos. Ao que parece, esses "efeitos de expectativa" também são vistos em pessoas, particularmente em relação a estudantes. Recentemente, assisti a um podcast sobre esse assunto ("Como se tornar Batman" em Invisibilia). Nele, falam sobre o estudo em ratos por alguns minutos e entrevistam Carol Dweck, um pesquisador de Stanford, que explica que os efeitos de expectativa ocorrem em um continuum. Assim, por exemplo, acreditar que alguém pode voar não vai fazer isso acontecer, mas acreditar que os estudantes são inteligentes, de fato, aumenta o seu QI.

Parece inacreditável, certo? É uma ideia poderosa pensar que podemos mudar alguém por pensar que algo é possível... ou não é possível. Tenha em mente, funciona nos dois sentidos.

Altas expectativas envolvem algum risco. Se temos expectativas, corremos o risco de nos decepcionar. Corremos o risco ter esperanças "altas demais". A beleza das expectativas é que elas são internas. Podemos defini-las tão alto quanto nós queremos, sem colocar pressão sobre ninguém, mas as pessoas vão sentir nossas expectativas em nossas interações com elas. Esperar que um indivíduo com pouco controle muscular e coordenação, disartria grave e incapacidade de controlar de forma confiável o seu corpo vai falar não significa que isso vai acontecer.

No entanto, vamos pensar sobre o que vai acontecer.

Se você tem a expectativa de que as pessoas conseguirão falar, você também terá a expectativa de que elas compreendam o que está sendo dito ao seu redor. Você irá falar com elas, se envolver com elas, explicar o que está fazendo e narrar seu dia. Você as tratará como se esperasse que elas, no fim, se tornem um/a parceiro/a de conversa. Você se decepcionará se eles não começarem a falar? Talvez, mas você pode ajustar a sua expectativa para superar as barreiras que estão impedindo o discurso oral.

Você pode aumentar suas expectativas.

Você pode ter a expectativa de que seus alunos se comuniquem usando comunicação aumentativa e alternativa (CAA). Sim, você teria que elevar suas expectativas a ponto de acreditar que podem aprender a se comunicar usando CAA. Você precisaria ter a expectativa de que esses alunos vão aprender uma nova linguagem, vão lembrar onde as palavras estão localizadas e serão capazes de expressar o que querem dizer com os botões que você lhes deu. Você precisaria ter a expectativa de que podem aprender linguagem e comunicação, sem o luxo de expressão oral. Você precisaria ter a expectativa de que eles têm muito a dizer e estão à espera de alguém para lhes dar as palavras necessárias para que encontrem o caminho para fora de seu labirinto de pensamentos. Você precisaria ter expectativa suficiente a respeito de si mesmo/a para acreditar que você é esse alguém.

Seus pensamentos sobre a capacidade de uma criança ou um aluno afeta o seu resultado, mesmo se você nunca falar deles. Altas expectativas não são o oposto da realidade. Há pesquisas baseadas em evidências: as expectativas moldam a realidade!

Você tem a capacidade de mudar outra pessoa... para melhor ou pior. Mesmo que você acredite que já presume competência quanto ao desempenho de seu(s) usuário(s) de CAA, tenha expectativas maiores. Deixe de lado seu medo de se decepcionar e considere as possibilidades. Mantenha uma expectativa de sucesso quanto a comunicação, relações sociais e amizades, letramento, faculdade, emprego, porque não há um fim conhecido para o continuum do "efeito expectativa". Suas expectativas hoje podem mudar o resultado de alguém. Que hoje seja o dia em que você eleve suas expectativas.

Originalmente publicado em 25 de fevereiro de 2016 por Heidi LoStracco (mestre e fonoaudióloga) no Blog Speak for Yourself AAC  - traduzido e postado com permissão da autora

Tradução livre - Fonte em inglês aqui.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Mais do que Palavras - O Programa Hanen

O Hanen Center, com base no Canadá, conta com mais de 35 anos de atuação na área de intervenção e formação com ênfase no desenvolvimento da linguagem e comunicação de crianças com autismo e outras condições através do Programa Hanen.

Com base no Programa Hanen, disponibilizam um excelente manual para pais - que será, certamente, de grande utilidade a profissionais também. Acessível, esclarecedor e prático, é leitura essencial para quem quer se comunicar e interagir de forma mais efetiva com sua criança, mas não sabe bem por onde começar.

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Mais do que Palavras

Autor: Fern Sussman

Para crianças com Transtorno do Espectro do Autismo, a comunicação é tão importante como para as outras crianças.

No entanto, elas enfrentam desafios especiais, devido ao seu estilo de aprendizagem e preferências sensoriais, o que geralmente torna difíceis a interação e a comunicação.

Felizmente há algumas coisas que tornam mais fáceis para o seu filho todos os tipos de aprendizagem, inclusive aprender a se comunicar.

As idéias deste livro preparam pais para ajudar seus filhos a aprender a interagir e se comunicar, usando situações que ocorrem naturalmente durando o dia.

Para download, acesse o Blog: Autismo - Lição de Vida

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Lagarta vira Papo sobre Comunicação Alternativa

PessoALL,

Recebi o convite da Andréa Werner do blog Lagarta Vira Pupa  para participar de um Lagarta Vira Papo sobre Comunicação Alternativa, juntamente com a minha querida amiga Fausta Cristina Reis, parceira no trabalho do Instituto Autismo & Vida e autora do blog Mundo da Mi e que agora está morando em Londres.

Foi uma experiência muito legal! Deu para compartilhar um pouquinho sobre o que venho aprendendo sobre o tema e também aprender com a experiência das duas. Amei!

Já está no ar para quem quiser assistir tanto no blog Lagarta Vira Pupa quanto no canal da Andréa no YouTube.




domingo, 17 de janeiro de 2016

PECS - o que é?

PECS significa Picture Exchange Communication System, ou sistema de comunicação por troca de figuras, em português. O PECS foi desenvolvido por Lori Frost e Andy Bondy em 1985 especificamente para pessoas com autismo. O PECS consiste em um protocolo de treinamento com base nos princípios da Análise Aplicada do Comportamento (ou ABA) visando ao desenvolvimento da comunicação espontânea e funcional (para fazer pedidos) de pessoas com autismo.

O PECS possui 6 fases:

  • Na fase 1, a pessoa aprende a trocar a figura pelo objeto que deseja.
  • Na fase 2, estimula-se a persistência na comunicação a despeito da distância em relação a um parceiro. Assim, a pessoa aprende a levar a figura do objeto que deseja até a pessoa que pode lhe entregar o item desejado. 
  • Na fase 3, tem início o ensino para que a pessoa comece a discriminar os símbolos nas figuras. Primeiramente, trabalha-se a escolha de um item desejado em relação a outro que não desejado. Depois, incia-se a escolha de um item entre dois itens desejáveis.
  • Na fase 4, é introduzida a organização de frases e a pessoa começa a juntar símbolos - o símbolo de "eu quero..." + o símbolo representativo do item desejado.
  • Na fase 5, a pessoa com autismo é ensinada a responder a perguntas diretas como "O que você quer?" e também são introduzidos símbolos de atributos como cores e tamanhos. 
  • Por fim, a fase 6, a pessoa é ensinada a responder perguntas, bem como a comentar espontaneamente sobre itens, pessoas ou atividades presentes em seu ambiente. Nesse ponto, já pode responder à pergunta "O que você quer?" com "Eu quero ___" e é ensinado também a diferenciar entre as respostas adequadas às perguntas "O que você vê?" e "o que você quer?"

Atenção! Utilizar figuras, fotos e pictogramas não é o mesmo que fazer o PECS. PECS não é sinônimo de usar figuras. PECS é o protocolo de treinamento em si. 

Para maiores informações, consulte a página oficial do PECS no Brasil: http://www.pecs-brazil.com/.



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Curso de Avaliação e Planejamento | 14/11/2015


Ferramentas práticas para a avaliação e planejamento da intervenção para o desenvolvimento da comunicação e linguagem no autismo

As dificuldades na área da linguagem e da comunicação são uma das marcas registradas no autismo. Esse curso tem o objetivo de apresentar ferramentas práticas para avaliar o perfil e planejar a intervenção para o desenvolvimento da comunicação e linguagem no autismo. 


                                                          Gostou? Faça sua inscrição aqui.

Data: sábado, 14 de novembro de 2015.

Horário:  8h30 – 18h30

Carga-horária: 10 horas-aula

Local:  CIEE, Av. Dom Pedro II, 861. Porto Alegre - RS

Público-Alvo:
Fonoaudiólogos, psicopedagogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos, educadores, pedagogos, estudantes, familiares e demais interessados no desenvolvimento da linguagem e da comunicação em pessoas com autismo.

Conteúdo programático:
- Autismo: uma visão a partir da neurociência e da neurodiversidade
- Como o autismo impacta a aprendizagem e o desenvolvimento
- Especificidades do desenvolvimento da linguagem no autismo
- Delineando o perfil da pessoa com autismo (entrevista, observação e escalas)
- Comunicação a partir do esquema de Charity Rowland
- Plano de intervenção e monitoramento do progresso
- A importância de suportes visuais e Comunicação Alternativa na intervenção
- Trabalhando em parceria com a família

Ministrante:
Renata Costa de Sá Bonotto
Doutoranda em Informática na Educação - PGIE/UFRGS
Mestre em Estudos da Linguagem - Linguística Aplicada - PPGLET/UFRGS
Especialista em Educação a Distância - Universidade Católica de Brasília/DF
Licenciada em Letras-Inglês - UFRGS
Formação em Inclusão Social e Escolar no Autismo
Membro efetivo da ISAAC - International Society of Augmentative and Alternative Communication


Observações:
- Haverá entrega de material impresso e referências dos conteúdos utilizados no curso.
- A Matriz de Comunicação, uma das ferramentas apresentadas no curso, conta com uma plataforma online que pode ser usada gratuitamente. Os interessados podem trazer seu PC para experimentar a ferramenta (haverá acesso wireless disponível no local).
- Vagas limitadas e para um grupo reduzido para favorecer a troca de informações e interação.
- Não serão realizadas inscrições no local.

Investimento: R$ 300,00

Depósito bancário
Banco Itaú, Agência 7336, Conta corrente 06095-4
Renata Costa de Sá Bonotto

Maiores informações e contato: autismoelinguagem@gmail.com

Gostou? Faça sua inscrição aqui.

Termo de Compromisso:
Acolheremos o cancelamento de inscrição quando solicitada até sete dias depois de sua efetivação. É possível indicar uma substituição de nomes através de comunicado prévia (em conformidade com o Código de Defesa do Consumidor - Artigo 49).
O curso será realizado mediante um número mínimo de inscrições necessárias.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Candidat@ à intervenção em Comunicação Alternativa


Para saber se uma criança ou pessoa autista é candidata à utilização de Comunicação Alternativa, as seguintes perguntas podem ajudar:
  • Ele/Ela não fala?
  • Tem um atraso na fala?
  • Tem uma fala incompreensível?
  • Tem um vocabulário limitado (de 1 a 20 palavras)?
  • Parece surda?
  • Usa uma palavra, frase ou sentença uma vez e depois não mais?
  • Usa a fala apenas para pedir algo que deseja muito?
  • Faz pedidos (ex.: eu quero...) mas não comentários (ex.: "estou com sede", "estou com frio", "o almoço está delicioso")?
  • Tem uma fala ecolálica, ou seja, repete palavras e frases que ouve?
  • Tem dificuldades em fazer pedidos?
  • Tem comportamentos difíceis de serem interpretados?
  • Não responde a perguntas?
  • Tem dificuldade na memória de curto prazo?
  • Tem dificuldade em iniciar interações? Tem dificuldade em interagir com outras pessoas?
  • Comunica-se apenas sobre tópicos específicos?
  • Fica brava e frustrada por motivos desconhecidos?
  • Fica brava e frustrada por motivos conhecidos, mas aparentemente razões que não fazem sentido?

Se a resposta para algumas dessas perguntas é sim, deve ser considerada a introdução de Comunicação Alternativa com a criança ou pessoa autista. ;-)

Por Joanne M. Cafiero, 2005

A Comunicação Alternativa é para quem???

Um fato me levou ao interesse pela Comunicação Alternativa foi meu filho estar com pouco mais de 5 anos e, por mais que tenhamos alcançado muitos avanços na comunicação por vias não orais, como na atenção conjunta, uso de alguns gestos e, até mesmo, algumas verbalizações, ainda eram recursos comunicativos limitados em relação às demandas de comunicação e funcionamento de uma criança em sua idade.

Então, acabou a Educação Infantil, chegou o primeiro ano do Ensino Fundamental, e as demandas se avolumaram ainda mais. Com déficits importantes tanto na linguagem expressiva e quanto na compreensiva, as oportunidades de interação social, aprendizagem e desenvolvimento se estreitaram em comparação às crianças de sua idade que já estavam falando pelos cotovelos. =D

Ao chegar nesse ponto, a Comunicação Alternativa deixou de ser uma opção (já não era antes, mas tive que descobrir sozinha!) e tornou-se um imperativo. Sim!!! A Comunicação Alternativa é para pessoas que não falam (ou falam muito pouco), mas não só.

É exatamente esse ponto que quero destacar aqui: a pessoa autista e todos os que se relacionam com ela se beneficiarão de uma intervenção em Comunicação Alternativa o mais cedo possível e em qualquer momento que isso aconteça.

Infelizmente, muitas pessoas reduzem Comunicação Alternativa ao uso de cartões de comunicação, mas isso é um grande equívoco. Há uma gama enorme de recursos, técnicas e estratégias que podemos usar para o desenvolvimento da linguagem expressiva, compreensiva, para aprendizagem e manejo de comportamento - apenas para citar alguns!

Usar Comunicação Alternativa, de forma bem simples, nada mais é que estabelecer um meio simbólico alternativo à fala que faça sentido entre duas ou mais pessoas. Eu gosto da metáfora da segunda língua. A Comunicação Alternativa é como uma segunda língua que tanto a pessoa com autismo e todos os que se relacionam com ela precisam usar para viabilizar a comunicação.

Comunicar-se é algo inerente ao ser humano e fazemos isso de muitas formas, convencionais ou não, através de símbolos concretos, abstratos ou de linguagem falada ou escrita. Todos, sem exceção, devem ter garantido o direito de se comunicar e a Comunicação Alternativa nos aponta caminhos possíveis.

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